Adoçantes artificiais provocam doenças metabólicas por alterarem a microbiota intestinal

Os adoçantes artificiais existem desde o final do século XIX, quando a sacarina foi descoberta. Foram introduzidos na indústria de alimentos com a finalidade de produzir sabor adocicado sem adicionar valor energético. Quanto a esta ultima propriedade não existe duvida e por isso, muitos profissionais da saúde, consideram seu uso um grande benefício. Por este motivo, atualmente, muitos produtos contem adoçantes artificiais, por exemplo, refrigerantes, cereais, sobremesas, yogurtes, gomas de mascar, etc. Desta forma, estes produtos são comumente utilizados por todas as pessoas, numa ampla faixa etária. Também são recomendados para indivíduos que necessitam reduzir o peso corporal, que sofrem de intolerância à glicose e diabetes mellitus do tipo 2. Entretanto, muitos cientistas têm demonstrado que o consumo destas formulações aumenta o risco para excessivo ganho de peso, síndrome metabólica, diabetes e doença cardiovascular (Swithers, 2013).

Muitos dos adoçantes passam pelo trato gastrointestinal humano sem sofrerem digestão e assim atuam diretamente sobre a microbiota intestinal, que tem papel central na regulação de vários processos fisiológicos.

A microbiota intestinal (também chamada de flora intestinal) contém trilhões de microrganismos. Um terço da nossa microbiota é comum em todas as pessoas, enquanto que dois terços são específicos para cada um, ou seja, faz parte da nossa identidade. A composição da microbiotta intestinal depende dos componentes da dieta, ingeridos temporariamente ou permanentemente. Assim, a composição e o metabolismo da microbiota são modulados pela qualidade da dieta, o que vai definir o estado saudável ou patológico do indivíduo.

Suez e colaboradores (2014) identificaram alterações no metabolismo da microbiota intestinal, após consumo de formulações comerciais com sacarina, sucralose ou aspartame. Observaram indução a disbiose (desequilíbrio na flora intestinal) e aumento da suscetibilidade do hospedeiro a doenças metabólicas. Dos adoçantes estudados por estes autores, a sacarina exerceu um efeito mais pronunciado, principalmente no que se refere ao desenvolvimento da intolerância à glicose. Estudando indivíduos não diabéticos, verificou que o uso prolongado de adoçantes tem associação positiva com o aumento de peso corporal, aumento da razão cintura/quadril, elevada glicemia de jejum e hemoglobina glicada, alteração no teste de tolerância à glicose, além de elevada atividade sérica da enzima alanina aminotransferase, revelando que os adoçantes, não só tem efeito em nível de síndrome metabólica como também comprometimento da função hepática.

 

Concluindo, os adoçantes artificiais foram introduzidos em nossa dieta com a intenção de reduzir a ingestão calórica e normalizar a glicemia, sem comprometer o paladar adocicado dos alimentos. Entretanto, surgiu uma paradoxal associação: o aumento do consumo de adoçantes com um coincidente aumento em proporções epidêmicas da obesidade e diabetes na nossa sociedade. De acordo pesquisas já realizadas, acredita-se que os adoçantes artificiais têm contribuído diretamente para estas epidemias através da modulação do tipo predominante e função da microbiota intestinal.

 

Para saber mais:

Greenhill C. Not so sweet-artificial sweeteners can cause glucose intolerance by affecting the gut microbiota. Nature reviews End. 10: 637. 2014

Pepino MY, Bourne C. Nonnutritive sweeteners, energy balance and glucose homeostasis. Curr Opin Clin Nutr Metab Care 14: 391. 2011

Shankar P, Ahuja S, Sriram k. Non-nutritive sweeteners: review and update. Nutrition 29: 1293. 2013

Suez J, Korem T, Zeevi D et al. Artificial sweeteners induce glucose intolerance by altering the gut microbiota. Nature 9 oct 514: 181. 2014

Swithers, SE. Artificial sweeteners produce the counterintuitive effect of inducing metabolic derangements. Trends in End and Metab 24: 431. 2013

Autora:

Dra. Regina Maria Guaragna
Professora do Departamento de Bioquimica-UFRGS

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