Adoçantes podem aumentar os riscos de desenvolver diabetes?

Saiu na revista Nature (uma das revistas científicas demaior prestígio no mundo) de setembro de 2014, um artigo mostrando que os adoçantes não calóricos como a sacarina e o aspartame largamente utilizados na indústria de alimentos Diet/ light/zero, não são tão inofensivos assim para diabéticos. Para começar, por que os pesquisadores decidiram estudar o efeito dos adoçantes nos diabéticos?

paper adocantes

 

Bom, como o uso indiscriminado de adoçantes artificiais é uma coisa recente na nossa história, primeiro se investigou se eles não podiam provocar alguma toxicidade de curto prazo, o que parece não acontecer.Também foi investigado o potencial dessas substâncias de provocar câncer nas pessoas e má formação no feto, o que foi visto que não acontece. Claro, que depois com o uso crônico por muitas pessoas os efeitos mais sutis acabam aparecendo, e um deles foi que parecia que eles aumentavam o risco de diabetes do tipo II.

Como assim?

Parecia que pessoas que consumiam muito adoçantes diariamente tinham maior risco de desenvolver obesidade e diabetes do tipo II (aquela onde a insulina continua sendo liberada, mas o corpo tem uma resposta menor a essa insulina).

Isso parece meio ilógico, não? Afinal os adoçantes não têm açúcar, como eles podem fazer a pessoa engordar ou causar diabetes? E o pior, alguns nem tem calorias e não são absorvidos pelo organismo, como poderiam ter um efeito desses?

Pois é, acredito que os pesquisadores que observaram isso pela primeira vez se perguntaram a mesma coisa. O que já se sabia é que temos no nosso intestino bactérias que podemos classificar como boas e ruins para o nosso organismo. Se favorecermos a proliferação das ruins temos muitos efeitos negativos como maior propensão à síndrome metabólica (conjunto de doenças cuja base é a resistência à insulina).

Mas as bactérias saem do intestino para causar esses efeitos maléficos?

Não, mas elas contêm na sua membrana uma substância que pode chegar à corrente sanguínea e provocar inflamação. A bactéria não chega, mas essa substância chega, na verdade é a presença dessa substância na membranaque nos faz classificar as bactérias em boas e ruins. As ruins são as que têm essa substância, chamada de lipopolissacarídeo (LPS), já as boas são aquelas que dificultam o desenvolvimento das ruins, conseqüentemente diminuindo a proliferação de bactérias produtoras de LPS.

Como elas fazem isso?

A simples presença delas faz isso. O espaço e estoque de nutriente são limitados, então esse efeito ocorre simplesmente por competição. Na verdade esse é o motivo pelo qual iogurtes fazem bem à saúde, eles favorecem o crescimento das bactérias boas, diminuindo a população das ruins. E os probióticos ainda prometem mais, prometes fornecer diretamente bactérias boas.

Por que esse LPS faz mal?

Na bactéria essa substância serve para manter sua integridade, já nos mamíferos ela provoca uma resposta do sistema imunológico. Faz sentido, durante a nossa evolução o nosso organismo precisou reconhecer invasores patogênicos (que poderiam nos causar doenças). Um das substâncias que o corpo aprendeu a reconhecer como invasora é a LPS que é capaz de desencadear mesmo sem o resto da bactéria toda uma cascata de reação imunológica.

Mas voltando ao artigo da revista, essa história dos adoçantes alterarem a flora intestinal é uma teoria ou já existem evidências?

Os pesquisadores conduziram experimentos em camundongos para tentar provar essa teoria.

O que eles fizeram?

Eles adicionaram um desses 3 adoçantes comuns (sacarina, sucralose ou aspartame) na água de camundongos adultos magros.Também usaram como controle camundongos consumindo água com glicose ou sacarose (açúcar comum). E depois realizaram uma curva de tolerância à glicose (administravam glicose aos animais e mediam ela no sangue ao longo do tempo) nesses animais e viram que os animais que consumiam sacarina apresentavam uma intolerância à glicose, como um início de diabetes. Intolerância significa que a quantidade de glicose no sangue não começava a diminuir com o passar do tempo, como ocorre com os animais normalmente. Isso reflete que a insulina, responsável por retirar a glicose do sangue e leva-la para os tecidos, não estava agindo de forma normal.

Tá, mas como eles provaram que esse efeito era por causa das bactérias do intestino?

Primeiro eles administraram antibióticos (para matar as bactérias) junto com os adoçantes e o adoçante não foi capaz de induzir intolerância à glicose nesses animais. Também transplantaram material intestinal de animais tratados com adoçantes sem antibióticos para outros camundongos e os que receberam o material intestinal dos tratados com adoçante, e, conseqüentemente, as suas bactérias, também desenvolveram intolerância à glicose.

Isso tudo em ratos, mas tem alguma coisa em humanos?

Sim, esses pesquisadores também aplicaram questionários a 381 pessoas não diabéticas para avaliar a relação entre o consumo de adoçantes por um período longo em vários parâmetros clínicos. E viram que havia uma correlação positiva entre o consumo de adoçantes e vários parâmetros relacionados à síndrome metabólica, isto é, quanto mais adoçante era consumido maior era o aumento de peso, os níveis de glicose de jejum e de hemoglobina glicada. Eles também avaliaram o perfil bacteriológico intestinal de 172 dessas pessoas e viram que o consumo de adoçantes alterava a presença de algumas famílias bacterianas específicas. Depois eles realizaram um estudo bem curtinho, de uma semana, com 7 voluntários saudáveis que não consumiam adoçantes normalmente e observaram que mesmo nesse curto período 4 dos 7 desenvolveram uma pior resposta glicêmica e esses 4 tinham bactérias intestinais diferentes dos outros 3 que não tiveram alteração na glicose. Tudo isso junto nos mostra que os adoçantes podem alterar a nossa flora intestinal e que isso pode contribuir na instalação da obesidade e do diabetes.

Autora:

Dra. Leticia Ferreira Pettenuzzo
Pós-doutoranda Departamento de Bioquímica -UFRGS

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