A Bioquímica do Medo

Emoções são produzidas quando sinais alcançam o tálamo, seja por estímulos advindos de regiões corticais do cérebro, seja a partir dos receptores sensoriais, ou seja, diretamente derivados de experiências vivenciadas. Em outras palavras, as emoções são caracterizadas pelo padrão de ativação do tálamo. O tálamo é uma região de grande importância funcional e atua como estação de retransmissão para os principais sistemas sensitivos (exceto a via olfatória). Além disso, está também envolvido no controle da motricidade, na expressão emocional e no nível de ativação do córtex. As atividades desempenhadas pelo tálamo estão, portanto, intimamente relacionadas com o córtex cerebral.

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Há ainda um sistema responsável pela experiência das emoções diretamente. Este veio a ser conhecido como sistema límbico, porém, dada a diversidade das emoções, não há uma razão forte para se pensar que apenas um sistema – e não diversos – esteja envolvido. Por outro lado, sólidas evidências indicam que algumas estruturas envolvidas na emoção estão também envolvidas em outras funções, deste modo, não necessariamente uma determinada estrutura encefálica estará envolvida apenas com uma respectiva e única função.

Evidências fortes sugerem que uma estrutura chamada amígdala, que se situa no polo do lobo temporal, logo abaixo do córtex, do lado medial, tenha um papel-chave na expressão do medo e ansiedade.

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A amígdala é um complexo de núcleos geralmente divididos em três grupos: os núcleos basolaterais, os núcleos corticomediais e o núcleo central.  É interessante o fato de que a informação proveniente de todos os sistemas sensoriais supre a amígdala, sobretudo os núcleos basolaterais. Cada sistema sensorial apresenta um padrão de projeção diferente para os núcleos da amígdala e interconexões dentro dela permitem a reunião de informações descendentes dos diferentes sistemas sensoriais. Os núcleos basolaterais recebem projeções auditivas, visuais, gustativas e táteis, sendo os núcleos mediais as células que recebem aferentes olfativos.

Por meio de vivências dolorosas ou percepção do mundo exterior, todos aprendemos a evitar certos comportamentos, geralmente que nos expõe a riscos, por medo de sermos feridos. Memórias associadas com medo podem ser formadas rapidamente e perdurar por uma vida toda. Embora não se acredite que a amígdala seja uma localização inicial para o armazenamento de memórias, não se duvida de seu envolvimento nos processos que conferem conteúdo emocional às memórias.

Diversos experimentos sugerem que neurônios na amígdala podem “aprender” a responder a estímulos associados com dor ou perigo e, após tal aprendizado, tais estímulos passam a evocar uma resposta de medo.

A resposta de medo inicia-se com a amígdala enviando um sinal ao hipotálamo, região que controla o metabolismo, aumentando a produção da adrenalina, noradrenalina, acetilcolina e cortisol.

A adrenalina é responsável pelo aumento da frequência cardíaca, pressão arterial e provoca a dilatação das paredes musculares dos brônquios, possibilitando o aumento do fluxo de ar e da taxa respiratória. A adrenalina também promove a redução na secreção de insulina no pâncreas e no fígado, induzindo o aumento da taxa de glicose na corrente sanguínea, o que leva a fermentação da glicose dos músculos. A noradrenalina é também um neurotransmissor e um precursor da adrenalina, com efeito de vasoconstrição periférica e aumento da pressão arterial. A acetilcolina é uma amina produzida no citoplasma das terminações nervosas e é responsável pela contração muscular e o cortisol ajuda a manter o balanço da pressão sanguínea. Em pouco tempo, a descarga dessas substâncias causa alterações no funcionamento de diversas partes do corpo, tais como as pupilas, que dilatam e, por consequência, isto diminui a capacidade de uma pessoa reparar nos detalhes que a cercam, aumentando o poder de visão geral. Uma adaptação evolutiva interessante, já que esse recurso permitia que o ser humano identificasse rapidamente as possíveis rotas de fuga.

Para provocar a resposta de luta ou fuga, o hipotálamo ativa dois sistemas: o sistema nervoso simpático e o sistema adrenal-cortical. O sistema nervoso simpático usa vias nervosas para iniciar reações no corpo, e o sistema adrenal-cortical usa a corrente sanguínea.

Quando o sistema nervoso simpático é acionado pelo hipotálamo, o nosso corpo fica em estado de alerta. O sistema nervoso simpático envia impulsos para glândulas e músculos lisos, com o objetivo de fazer a medula adrenal liberar adrenalina e noradrenalina na corrente sanguínea. Esses “hormônios do estresse” causam várias alterações no corpo, incluindo um aumento na pressão sanguínea e aceleração do batimento cardíaco.

Ao mesmo tempo, o hipotálamo libera fator de liberação corticotrófico (CRF) na glândula pituitária, ativando o sistema adrenal-cortical. A glândula pituitária (uma grande glândula endócrina) secreta o hormônio adrenocorticotrófico (ACTH), que se move pela corrente sanguínea e chega no córtex adrenal, o que ativa a liberação de aproximadamente 30 diferentes hormônios que deixam o corpo preparado para lidar com um perigo.

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A liberação repentina de adrenalina, noradrenalina e vários outros hormônios causa mudanças no corpo que incluem:

  • Aumento da frequência cardíaca e pressão sanguínea;
  • Pupilas dilatadas;
  • Veias na pele se contraem para enviar mais sangue para os principais grupos musculares (responsáveis ​​pelo “frio” às vezes associado ao medo – menos sangue na pele para mantê-lo aquecido);
  • Aumento do nível de glicose no sangue;
  • Os músculos ficam tensos, energizados pela adrenalina e pela glicose (responsáveis ​​pelo arrepio – quando os músculos minúsculos presos a cada cabelo na superfície da pele ficam tensos, os cabelos são forçados para cima, puxando a pele com eles);
  • O músculo liso relaxa para permitir mais oxigênio nos pulmões;
  • Sistemas não essenciais (como digestão e sistema imunológico) desligados para permitir mais energia para funções de emergência;
  • Dificuldade em se concentrar em pequenas tarefas (o cérebro é direcionado a focar apenas no quadro geral para determinar de onde vem a ameaça).

 

Autores:

Aline Kautzmann Sartori

Ederson Leonardo Ignácio

Laíssa Soares