Alimentos transgênicos

Super-peixes, proteínas tóxicas e soja: o que sabemos sobre alimentos transgênicos?

Um resumo de tudo (ou quase tudo) o que você precisa saber para entender de uma vez por todas o que são transgênicos e as consequências (positivas e negativas) de seu uso.

Se você não quiser ler tudo, pode simplesmente clicar na parte que mais lhe interessar:

  • O que são transgênicos e exemplos
  • Transgênicos x seleção humana
  • Transgênicos no cotidiano
  • Realidade do Brasil
  • Riscos da técnica em si
  • Ambiente e economia
  • Considerações finais

Por mais que você não saiba exatamente o que são transgênicos e o que tem haver com título, tenho certeza que essa palavra não deve ser nova pra você. Quantas vezes você ouviu falar nessa palavra? Você é a favor ou contra?  Pois é, essa é mais uma polêmica que tem sido levantada, mas no fim das contas, só uma parte muito pequena da população brasileira realmente sabe o que é apesar de comer todo dia.  Não queremos te convencer a ser contra ou a favor mas, simplesmente, que você entenda de verdade o que são os alimentos geneticamente modificados, para que servem, os pontos positivos e negativos, onde estão e o que a ciência nos diz sobre seus possíveis malefícios e benefícios à saúde.

Comida transgênica?! O QUE É ISSO?

O ser humano é um ser muito complexo. Você já deve ter percebido que existem pessoas de tudo que é tipo: altas e baixas, olhos claros ou escuros, cabelos lisos ou cacheados. Essas diferenças são resultados dos nossos genes que vem dos nossos antepassados. Os genes nada mais são que informações que todos nós temos no nosso DNA e que passamos adiante para os nossos filhos, metade do pai, metade da mãe. É como se fosse uma receita que diz exatamente ao nosso corpo como devemos ser. Todo ser vivo apresenta seus próprios genes desde bactérias às plantas. Então, um organismo geneticamente modificado é um organismo (planta, animal, bactéria…) que sofre uma mudança nos seus genes. Um transgênico é um organismo geneticamente modificado – OGM – que foi pego uma informação (gene) de um organismo e posto em outro (também pode ser chamado de maneira mais formal de ‘DNA recombinante’). Por exemplo, por mais que não exista na natureza rosa azul, em 2009 um grupo de cientistas japoneses da multinacional Suntory combinou genes de outras flores e inseriram no código genético de uma rosa naturalmente branca e obtiveram uma rosa azul. Não é Interessante?

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Fig. 1 – Apesar do tom violáceo, essa é a primeira rosa com pigmentos legitimamente azuis. Foto: Suntory.

Por mais que pareça ficção científica tudo isso é muito real e está presente de diversas formas no nosso dia-a-dia de maneira que você nem imagina! Desde o surgimento da primeira planta transgênica em 1983, uma grande variedade de novos transgênicos surgiu. Hoje existem tomates modificados para que durem mais tempo, arroz enriquecido com ferro e vitaminas, grãos resistentes a “pragas” e até peixes modificados para que cresçam muito mais rápido.

O super salmão!

 Em novembro de 2015 foi aprovada nos estados unidos, pela primeira vez,  a comercialização de uma espécie geneticamente modificada para consumo humano. Um salmão que cresce muito mais rápido que o normal. Para você ter uma idéia, geralmente esse salmão demoraria cerca de três anos para alcançar a idade de mercado e o salmão modificado demora em

Super salmão

Fig 2 – Figura ilustrativa – Acervo da revista

média de 16 à 18 meses. Não, não pense que o super salmão veio de outro planeta e que o ponto fraco dele é kryptonita, pois ele é um mero salmão que vive no atlântico e que foi inserido genes de outros tipos de salmão.  O que acontece é que normalmente, nos meses mais frios, os hormônios de crescimento do salmão não são ativos. Mas, com a adição desses novos genes de outra espécie, é possível que eles cresçam não só em certo período de tempo, mas o ano todo!

 

 

Bananas podem ser estranhas

Talvez você esteja pensando que modificar a natureza em benefícios dos humanos pareça algo inovador e de alto uso tecnológico, no entanto, não é bem assim como parece.  Antes mesmo de existir a genética e até mesmo bem antes de se descobrir o que era o DNA, os seres humanos já modificavam geneticamente a natureza de propósito. Dúvida? Se você tem um gato, ou um cachorro você tem a prova disso. Todas as raças de cães e gatos existentes hoje foram criadas por pessoas que escolheram as características desses animais (cor, tamanho, pelo…) e cruzaram eles para obter uma linhagem desejada. E isso acontece não só com os animais, mas também com as plantas. O repolho, o brócolis e a couve flor na verdade vêm de uma mesma planta, isso porque as suas características foram sendo selecionadas ao longo dos anos. Essa domesticação desses organismos é o que chamamos de seleção artificial, o contrário da seleção natural que é o processo em que a natureza determina as características. Nesse foto da pra ver a grande diferença de uma banana domesticada para um tipo de banana selvagem.

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Fig. 3 – A banana da esquerda é uma banana comum, vista nos supermercados. Ela foi selecionada conforme suas características pelo ser humano. A banana da direita é uma banana selvagem e que não possui intervenção humana no seu processo de evolução. Foto Musarama.org

Os alimentos transgênicos também são uma forma escolher as características desejadas nos organismos. Mas nesse caso as características que são desejadas são selecionadas no laboratório, simplificando bastante, é como se você tivesse um jogo Lego completo, mas mesmo assim para montar o que você deseja você pega uma peça de outro jogo lego. Mas será que tirar genes de um ser e por em outro tem algum problema para saúde humana? Será que causa algum prejuízo ao ambiente? Ou será que é testada, completamente segura e não devemos nos preocupar com isso?

Transgênicos nossos de cada dia

Esse tipo de “novo” alimento aparece com um potencial grande de mudar o mundo de maneira positiva. Imagine que uma parte de uma população tem deficiência de certa vitamina ou ferro. Com essa tecnologia é possível resolver isso. Como exemplo disso, existe o Golden Rice (ou arroz dourado), um tipo de arroz modificado geneticamente que produz beta-caroteno, um precursor da vitamina A. Assim como o Super Salmão, as plantas não crescem em todas as estações do ano. Com a intenção de fazer com que essas plantas cresçam o ano todo, existem plantas modificadas para serem resistentes a variação do tempo e resistirem o ano todo. Mesmo assim países como o Japão, Alemanha, Nova Zelândia e outros tantos tem pelo menos algum tipo de restrição ou proibição ao cultivo de transgênicos.  Por outro lado, o Brasil é um dos maiores produtores mundiais de alimentos geneticamente modificados. Mas e aí, “é seguro ou não é?” Por mais que a pergunta seja simples, a resposta não é tão simples assim.

A CTNBio (Comissão Técnica Nacional de Biossegurança) é o órgão responsável pela liberação dos transgênicos no Brasil. Esse órgão é formado multidisciplinarmente por membros de várias áreas. E é justamente ela que tem a tarefa de avaliar os riscos dos organismos geneticamente modificados para a saúde humana e o meio ambiente. Todos os alimentos transgênicos que temos hoje no mercado foram aprovados e testados por intermédio da CTNBio. Ou seja, a soja transgênica (que é um dos principais produtos transgênicos do Brasil) foi testada e aprovada e não houve nenhum estudo conclusivo alegando prejuízo a saúde humana. Apesar disso, existem diversos pesquisados e estudiosos que afirmam que não é bem assim. Para a gente entender melhor isso, nós temos que compreender quais são os dois principais transgênicos no Brasil: os resistentes a herbicidas e os resistentes a pragas.

O milho, a soja, as lagartas e as bactérias – Os tipos de agrotóxicos do Brasil

 Alguns parágrafos atrás você deve ter visto vários tipos de transgênicos como o Super Salmão, o Golden Rice e a flor azul, certo? Então, apesar de existirem e atualmente alguns deles estarem no mercado consumidor, eles não são nem de perto os transgênicos mais comuns no Brasil. Muitos dos problemas levantados relacionados ao uso dos transgênicos não está nem associados a técnica, mais sim as consequências do uso dela.

Se existe um tipo de transgênicos que a gente deve falar com mais detalhes aqui, são os resistentes a agrotóxicos. Sabe por quê? Por que muito provavelmente você come ele todo dia.

Agrotóxico é um nome genérico para um determinado produto químico usado na agricultura para conter organismos como insetos, “ervas daninhas” ou plantas indesejadas

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Fig. 4 – Aplicação de agrotóxicos em lavoura de hortaliça. – Foto: Waldson Costa.

em uma plantação. Por exemplo, podemos citar como tipos de agrotóxicos os herbicidas que servem para eliminar plantas invasoras em uma monocultura de soja ou pesticidas para eliminar lagartas que estejam se alimentando de uma plantação de milho. São nomes distintos, mas ambos são agrotóxicos. Mesmo que alguns agrotóxicos sejam classificados como nível de toxicidade para o humano não tão alto, todos eles apresentam alguma toxicidade aos seres humanos.

Ao se aplicar um herbicida para matar “ervas daninhas” e plantas indesejadas, mesmo sem a intenção, algumas plantas que estão sendo cultivadas serão afetadas. Para evitar isso, na Década de 80, uma companhia multinacional chamada Monsanto desenvolveu uma soja transgênica com uma característica única, chamada de Roundup Ready® (ou RR). A soja RR possui a característica de ser resistente ao herbicida Roundup ® (ou mais comumente conhecido como glifosato) também produzido pela mesma empresa. Esse gene foi isolado de uma bactéria encontrada em tanques de uma fábrica de glifosato. No entanto, como você já deve ter ouvido falar, agrotóxicos fazem bastante mal a nossa saúde e no Brasil, a situação está bem séria. Para você entender melhor, no nosso país, são consumidos anualmente cerca de 130 mil toneladas de agrotóxicos. É um aumento gigantesco de 700% nos últimos quarenta anos. Ta, mas aí você pode pensar –“Mas o espaço onde existem plantações (áreas agrícolas) aumentou também!” e certamente, sim. O problema é a proporção disso, enquanto o consumo de agrotóxicos subiu 700%, a área agrícola subiu só 78% – (Dados da EMPRAPA).

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Fig. 5 – Demonstrativo do aumento da comercialização de agrotóxicos em quilos por hectare de área plantada entre os anos de 2000 e 2012 – Foto: Reprodução/IBGE

O segundo alimento transgênico mais comum na comida presente na nossa vida cotidiana são os alimentos que foram modificados para serem resistentes a pragas, como a lagarta do milho citada anteriormente. A ideia é criar uma alternativa para combater possíveis danos causados por “pragas” às plantações. E assim, possivelmente reduzir o uso de pesticidas. Um dos mais famosos exemplos é o milho “Bt” – Bt são as iniciais da bactéria Bacillus thuringiensis que contém uma proteína tóxica para algumas lagartas – que é capaz de ser mais resistente que os milhos comuns. A criação de tal tipo de milho tem intenção de  melhorar a produção e reduzir o uso de pesticidas.

Vilão e mocinho, tudo depende de ponto de vista

Será que então que podemos dizer que os transgênicos são vilões da saúde humana? Na verdade não.  Segundo os estudos atuais, não há nenhuma evidência clara que indique que a tecnologia em si dos alimentos transgênicos possa ter algum prejuízo direto para a nossa saúde. Essa tecnologia vem sendo testada por diversos pesquisadores ao longo dos anos pelo mundo, confirmada no Brasil como uma tecnologia utilizável pela CTNBio (Comissão Técnica Nacional de Biossegurança) como segura. Por outro lado, nem todos cientistas acham a mesma coisa, por isso cabe dizer que alguns cientistas alegam que os dados são insuficientes, pois essas pesquisas são feitas em laboratório fechado em um ambiente ideal e testadas em um prazo curto (em poucas gerações de animais) e assim nunca foram testadas em escala real com grandes populações e a longo prazo, o que não deixa de ser verdade. Mas mesmo assim, em geral, se acredita que a técnica em si não causa problemas e o que poderia causar algum efeito seriam os efeitos secundários e pleiotrópicos (que nada mais que um nome “complicado” que se da quando uma alteração genética altera não só um produto, mas por consequência, vários outros).  Por exemplo, podemos fazer a analogia a um canivete que tenha ferramentas como uma faca, um saca rolhas e chave de fenda. Por mais que você não precise do saca rolhas, ao comprar o canivete você automaticamente compra um saca rolhas, mesmo sem ter a intenção. Mas olhando pelo outro lado, se você por fora o canivete por não gostar do saca rolhas nem da faca, você perderá também a função de chave de fenda.

As consequências de possíveis efeitos pleiotrópicos não são totalmente conhecidas e podem causar efeitos inesperados ou não.

 O ponto de vista ambiental e econômico

 Até agora a gente viu diversas coisas sobre transgênicos. Vimos o que é, pra que serve, onde estão no nosso cotidiano e até aonde é possível ter riscos. Mas e para o ambiente, será que tem algum prejuízo? Então, nesse ponto existem muitas dúvidas e divergências principalmente por que existem carências de estudos. Mas de maneira geral, existe a visão dos efeitos diretos, que são causados pela influência deles no ecossistema local e também o efeito indireto. Como efeito direto, a proteína toxica (para as lagartas) de um milho Bt pode acabar matando diversas lagartas que se alimentam do milho que por sua vez, podem ser alimentos de outros animais como aves e assim sucessivamente. Ou seja, é possível que influencie desequilibrando todo o ecossistema. Como efeito indireto um dos principais efeitos citados pelos pesquisadores é a contaminação genética – nesse caso é a passagem do pedacinho transgênico do DNA entre populações diferentes e que não são o alvo – e que foi demonstrado efetivamente ocorrer aqui no Brasil em lavouras de milho. Pense que existissem duas plantações de milhos, uma transgênica e outra vizinha que não é. Mesmo respeitando a distância limite que os fabricantes impõem, o milho transgênico contamina o milho comum. Dessa maneira se analisarmos o milho comum vizinho ele pode conter traços de milho transgênico mesmo não sendo uma plantação transgênica. E qual o problema disso? Aí depende muito. Diretamente talvez não haja um efeito imediato. Mas por outro lado, é direito do consumidor ter controle do que se alimenta além de ambientalmente existir a influencia de novos genes na natureza.

Além disso, o novo gene inserido na planta como no milho BT, que apresenta a proteínas tóxicas para as lagartas, pode causar uma seleção no ambiente. Os poucos insetos que conseguem se alimentar do milho irão sobreviver enquanto o restante morrerá. Assim com o passar do tempo, eles serão os únicos que restarão, substituindo os demais. Ao longo do tempo a tecnologia já não tem mais tanta eficácia e precisa ser substituída por um novo transgênico de forma indeterminada e assim, podendo criar uma dependência econômica com a empresa que produz as sementes transgênicas.

É interessante ressaltar que de qualquer maneira, fazendo mal ou não, é fato que atualmente os transgênicos têm como principal motivo de estar no mercado, o interesse econômico de multinacionais e grandes produtores e não por razões sociais.

 Tá, mas e aí?

É tanta informação que às vezes fica confuso né? Mas espera, vamos clarear as coisas pra você. Como a gente viu transgênicos são alimentos que receberam um gene (um pedacinho de informação das células) que foi posto em outra célula. Essa modificação pode ser feita por várias razões, como aumentar a produção ou tornar plantas mais resistentes. Nós também vimos que não são só plantas que podem ser transgênicas e comercializadas, existem já peixes transgênicos, como o super-salmão. Sobre riscos para saúdenão existe confirmação entre os cientistas, que a técnica em si cause riscos. Por outro lado, existem outros pesquisadores que alegam poder existir efeitos secundários que não teriam sido estudados à longo prazo pois essa é uma tecnologia “nova”, assim como ocorre com os efeitos no ambiente. Os dois tipos principais de transgênicos produzidos no Brasil são o milho BT e a soja resistente a herbicidas. Eles podem estar associados ao aumento do uso de agrotóxicos

Milho Bt

Fig. 6 – Figura ilustrativa. Acervo da revista.

(soja resistente) e que poderiam hipoteticamente estar associados a redução do uso de pesticidas (milho BT).  Ufa, agora você pode tirar suas próprias conclusões ou pesquisar um pouco mais sobre o assunto. Mas mesmo assim, independente de você ser contra ou a favor ou até mesmo indiferente, você concorda que o consumidor tem o direito de saber o que está comendo? É isso que o famoso T amarelo presente nas embalagens de alimentos transgênicos indica. Quem garante que ele esteja lá é um decreto de lei criado em 2003. No entanto em 2015, um projeto de lei criado pelo deputado Luiz Carlos Heinze (PP/RS), que visa a não obrigatoriedade de rotular alimentos transgênicos quando sua composição final não for superior a 1%, foi aprovado pela câmara dos deputados. Pelo ponto de vista de diversos pesquisadores, o consumidor deveria ao menos saber o que está consumindo pelos seu próprio direito como consumidor. Isso independentemente se por razões de saúde, ética ou qualquer outra.

De todas as certezas que temos sobre transgênicos, a maior delas é que não há completas certezas ou consensos na ciência sobre o seu uso e sua segurança. Como a gente viu, temos pontos positivos e negativos. Temos algumas certeza e diversas dúvidas ainda. Apesar disso, cada dia que passa novas descobertas vão surgindo e cada vez mais conhecemos os alimentos transgênicos e a comida que a gente come todo dia. Esperamos ter ajudado você a ter uma opinião e saber um pouquinho mais sobre esse mundo fantástico que é a comida. Deixe sua opinião nos comentários, o que você acha sobre os alimentos transgênicos?


 Texto escrito por
Alexsander Alves Teixeira
Graduando em Ciências Biológicas pela UFRGS

Referências:

 

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