Antibiótico na infância faz mal?

Por Henrique Mautone Gomes (Nau32):

                    https://www.nau32ceeo.com/single-post/2018/07/11/Antibi%C3%B3tico-na-inf%C3%A2ncia-faz-mal

Imagine por um momento que um resfriado pode ser fatal, um mero corte nas mãos, nos pés ou nos joelhos enquanto se está na rua ou até mesmo o simples ato de roer as unhas ou botar a mão na própria boca depois de tocarmos algo sujo se tornar algo muito pior como uma infecção generalizada. Essas situações parecem pouco prováveis nos dias de hoje, no entanto antes da década de 40 elas eram muito comuns e algumas infecções bacterianas quase sempre levavam a óbito.  A mesa virou apenas após a Segunda Guerra, onde a Penicilina foi produzida em larga escala, testada em campo e permitiu o salvamento de milhares de vidas. Agora disponível para a população civil a Penicilina, descoberta acidentalmente pelo bacteriologista Alexander Fleming em 1928, já estava salvando vidas e tratando diversas doenças antes impossíveis como a pneumonia, a meningite e a bronquite que nos tempos atuais parecem facilmente tratáveis com um ciclo de antibióticos.

Extraído de um gênero de fungos (Penicillium) pertencentes ao filo dos Ascomycetes a Penicilina foi o primeiro antibiótico a ser descoberto, testado e utilizado no mundo em escala industrial e com resultados milagrosos comparados a outros tratamentos da época como as sulfas e apesar de hoje em dia ter dado espaço a outros antibióticos ela marca o ponto de surgimento de todos outros fármacos e substâncias bactericidas utilizadas hoje.

Penicillium sp.

É IMPOSSÍVEL negar a utilidade ou os avanços que os antibióticos trouxeram para o ser humano e como eles mudaram a rotina em hospitais, consultórios de atendimentos e até mesmo em centros emergenciais. Hoje em dia também é impossível negar a nossa relação de troca com todas as bactérias e microrganismos que habitam nosso corpo, a dita Microbiota, o que não é tão claro ainda é como essa microbiota afeta nosso corpo como um todo, ou qual o papel que cada um desses microrganismos deve desempenhar para um funcionamento saudável e pleno dessa comunidade de seres vivos que chamamos de Corpo Humano.

Caso você não tenha percebido as situações referidas na primeira frase desse texto são muito mais comuns às crianças do que para os adultos (e dificilmente uma criança estará lendo este texto) por isso ele serve como uma forma de aviso, ou precaução aos pais. O uso de antibióticos, a formação e cultivo de uma microbiota saudável, e a relação entre estes dois são assuntos que precisam ser discutidos e considerados principalmente em crianças, uma vez que este grupo se encontra em pleno período de desenvolvimento e uma vez que a forma que o nosso corpo e nossa comunidade de microrganismos se organiza vão ditar certos aspectos de nossa vida adulta.

-Vamos pensar um pouco mais fundo? Estas bactérias principalmente as que vivem no trato digestório são importantes para uma vida saudável e antibióticos são remédios desenvolvidos para matar bactérias, não é possível que os próprios antibióticos que tomamos para tratar doenças possam estar matando as bactérias necessárias para o nosso desenvolvimento e saúde?

– Então os antibióticos são feitos para matar as bactérias que nos fazem mal?

-Isso é verdade… No entanto a identificação de determinada bactéria leva certo tempo, necessitando da análise de um laboratório para então o médico receber o laudo e poder receitar um remédio. Porém a maioria senão quase a totalidade dos antibióticos receitados são antibióticos de amplo espectro, ou seja, eles atacam um grupo diverso de bactérias para podermos nos dar ao luxo de não precisarmos de testes em laboratório e sermos capazes de um diagnóstico rápido.

-Então a culpa é dos médicos que desejam atender o mais rápido possível os pacientes e prescrevem um antibiótico sem ter certeza das causas da doença!

-Talvez, mas não podemos nos esquecer de que muitas pessoas vão ao médico apenas numa situação extrema e de necessidade, muitas vezes exigindo uma cura rápida para que possam voltar à rotina de uma vez. Esses fatores e o possível medo de médicos inexperientes de darem um diagnóstico errado levando a uma situação pior pode leva-los a prescrever antibióticos indiscriminadamente.

Logo após o “boom” da Penicilina no fim da década de 40 foi descoberto nos EUA que a administração de antibióticos era capaz de aumentar em 50% o crescimento de frangos em cativeiro, assustados com a crise econômica do período pós-guerra criadores de animais passaram a dar antibióticos para, vacas, porcos e aves de abate, além desse aumento no peso eles eram tentados pela possibilidade de criar mais animais confinados em um pequeno espaço sem o risco de contraírem infecções. Essa prática é mantida até os dias de hoje onde se estima que nos EUA 70% dos antibióticos produzidos são voltados para a indústria agropecuária. Logo não é estranho de se observar que juntamente com a popularização do uso de antibióticos nos anos 40-50 a tendência da atual crise de obesidade começou a se formar, assim é possível relacionar estes dois fatos: antibióticos foram feitos para matar bactérias mas aparentemente eles não são responsáveis por matar apenas as bactérias que nos fazem mal afetando nosso corpo como um todo, inclusive as bactérias que auxiliam no bom funcionamento de nosso sistema digestivo; uma vez que estas bactérias se encontram em desequilíbrio nosso corpo também se encontra e o valor de uma alimentação saudável talvez já não seja tão significante uma vez que nossos microrganismos não estarão presentes para absorver os nutrientes da dieta; logo o discurso de que o aumento de peso e a obesidade estão apenas relacionados a ingestão de comida e ao exercício realizado (consumo calórico X gasto calórico) está sendo desmistificado com o tempo pois cada vez mais entendemos a responsabilidade de manter uma microbiota equilibrada e saudável para assim nós sermos saudáveis.

Se os antibióticos são capazes de fazer isso com animais de criação imagine os efeitos na microbiota de seu filho, sobrinho ou neto?

Porcentagem da população com Índice de Massa Corporal acima de 30 no decorrer dos anos:

British Journal of Sports Medicine (traduzindo) – A epidemia de obesidade: é comida demais para pensarmos? (R.C. Davey 2004) http://bjsm.bmj.com/content/38/3/360

Esse desequilíbrio pode ter consequências duradouras na vida da criança que está num período de “programação metabólica”, Korpela & de Vos (2016) mostraram que a relação entre dois gêneros comuns de bactéria demoram até 24 meses para voltarem ao normal após um tratamento com antibióticos em crianças de 2 a 5 anos. Não apenas esses autores mas nos últimos anos diversos pesquisadores vem nos alertando sobre os riscos de cada prescrição de antibióticos que nos é dada; desde maior risco de desenvolver obesidade infantil e asma quando usados antes dos dois anos de idade até maiores chances de desenvolver transtornos psicológicos como ansiedade, depressão ou déficit de atenção para cada tratamento feito na infância.

Já é sabido que a nossa primeira exposição a micróbios é pontual para o bebê e que ela acontece durante o parto normal em que a mãe transfere sua microbiota para o recém-nascido e nos meses seguintes através do leite materno. Concomitantemente quando um bebê nasce de cesariana essa transferência de microrganismos não ocorre impedindo que o bebê inicie seus primeiros dias de vida com uma comunidade de bactérias se habituando a ele. Devido a isso muitos hospitais vêm empregando técnicas para possibilitar o florestamento da microbiota de bebês nascidos por cesariana quando esse tipo de parto é necessário.

Com as descobertas científicas dos últimos anos muitos médicos, em especial os pediatras, vem tentando diminuir a prescrição de antibióticos e pedindo calma aos pais de crianças doentes. Pode parecer difícil para uma mãe ou um pai aceitar mais alguns dias de precaução e apenas tratar os sintomas com xarope, uma boa alimentação e descanso, mas isso certamente pode estar salvando essas crianças de outros problemas que só serão vistos nos anos a seguir. É claro que existem casos em que o uso de antibióticos é necessário e não pode ser evitado, mas cada vez mais, revistas especializadas e pesquisadores da área vem pedindo para que se tome extremo cuidado ao receita-los para bebês e crianças devido aos fatos aqui divagados. Hoje em dia se acredita que é mais importante abrigar uma diversidade de organismos em equilíbrio do que possuir uma microbiota contendo o organismo x ou o organismo y, e que o bom funcionamento da microbiota e do organismo hospedeiro depende mais desse equilíbrio dos grupos encontrados na microbiota do que uma abundância de certo gênero; logo não se pode dizer que existem as bactérias totalmente boas para nós mas que elas devem funcionar em comunhão garantindo que sejamos capazes de aproveitar ao máximo os nutrientes de uma dieta saudável.

 Enquanto essa discussão dos antibióticos é recente e as consequências do seu uso ainda não estão completamente claras para nós só se é possível prevenir e tentar diminuir seu uso. Nas situações em que não podem ser evitados novas formas de terapia com a intenção de evitar seus efeitos colaterais estão sendo descobertas. Mas no fundo esses métodos não tem nada de novo e partem de um principio bem simples, o mesmo dos antibióticos na verdade, estou falando dos Probióticos.

Se os antibióticos tem como objetivo matar os microrganismos que estão nos causando mal os probióticos fazem exatamente o contrário, eles são compostos de organismos vivos que devem reformular a nossa comunidade microbiana. De fato já foi visto que pessoas que tem o costume de ingerir probióticos anteriormente ao receberem um tratamento com antibióticos possuem consideravelmente menos chances de terem diarreia proveniente do tratamento com os fármacos, evitando que pessoas com tratamentos recorrentes sofram com a perda de peso e falta dos organismos “normais” de seu corpo. Esses probióticos que são comercializados na forma de iogurtes, pós, cápsulas e até mesmo cremes por muitos médicos são acreditados como pseudociência mas já apresentaram resultados interessantes como forma preventiva de tratamento, porém ainda é preciso desvendar os verdadeiros efeitos deles o que é difícil pois para isso é necessário uma determinação clara dos organismos presentes em cada produto oferecido e os efeitos desses organismos sobre nosso corpo uma vez que aparentemente existem diferenças entre as características ditas e as encontradas em diversos produtos encontrados hoje em dia.

Também não se pode esquecer que esses organismos são especializados em consumir certos tipos de alimentos que ingerimos e um desbalanço através do uso de probióticos também podem ter seus efeitos positivos negligenciados por alguém que não esteja pronto para recebe-los, por isso também está entrando em discussão o papel e recomendação dos prebióticos, alimentos que devemos ingerir para o nosso corpo e sistema imune permanecer ativo e eficiente ao adicionarmos um grupo talvez nunca visto para nossa microbiota. Não eles não estão presentes em alimentos difíceis de encontrar ou impossíveis de se comprar para a maior parte da população, eles são encontrados principalmente em frutas, vegetais e leguminosas (principalmente em sua forma natural, aonde a maior quantidade de fibras desses alimentos também pode ser absorvida) entre os alimentos recomendados que apresentam essa capacidade prebiótica estão: a cenoura, a cebola, o alho e alho-poró, aspargos e bananas; isso porque se acredita que eles encorajam a presença de uma bifidobactériia importante para a diminuir a permeabilidade do intestino, reduzir o apetite e aumentar a sensibilidade à insulina estimulando a perda de peso a Akkermansia muciniphila, mais uma vez mostrando a importância de uma boa alimentação composta por uma diversidade de alimentos vegetais em sua forma natural, que por sua vez tem mais a oferecer tanto em fibras quanto em compostos estimulantes de um bom funcionamento do sistema imune e digestivo do que quando disponíveis em uma forma processada já manipulada e modificada pela indústria ou em formas de sucos ou alimentos prontos.

Akkermansia muciniphila

 

Texto escrito inspirado no livro “10% humano: como os micro-organismos são a chave para a saúde do corpo e da mente” de Alanna Collen

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Referências:

-Alanna Collen: 10% humano: como os micro-organismos são a chave para a saúde do corpo e da mente (2016)

-Katri Korpela & Wilmem M de Vos (2016); Antibiotic use in childhood alter the gut microbiota and predisposes to overweight

-Amy Langdon, Nathan Crook, Gautam Dantas (2016); The effects of antibiotics on the microbiome throughout development and alternative approaches for therapeutic modulation.

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