Consequências metabólicas de uma dieta hiperproteica

– Este texto trás, em tom divertido, algumas personagens da bioquímica para ilustrar melhor certas vias metabólicas e facilitar a compreensão do(da) leitor(a). Lembrando que este texto carrega informações para que possamos conhecer mais nosso próprio corpo e o que acontece nele quando nos alimentamos. Mais especificamente em uma dieta hiperproteica. –

As dietas hiperproteicas estão super na moda, principalmente nas academias e em grupos de pessoas que buscam um condicionamento físico específico: muita massa magra, músculos. E na maioria das vezes o objetivo é alcançado, afinal as proteínas participam do preenchimento muscular após um exercício físico intenso, propiciando o aumento crescente dos músculos, quando acompanhado da queima de gordura.

Mas afinal, quais são as consequências metabólicas de uma dieta com muita proteína? Pra começar, existem duas condições: uma dieta rica em proteínas, porém pobre em carboidratos, que são as famosas dietas low-carb.

Personagens

Carboidratos, proteínas e lipídios.

Porém, uma dieta hiperproteica não precisa, necessariamente, cortar o carboidrato, e aí entram alguns problemas. Quando nos alimentamos regularmente de carboidratos, gorduras e proteínas, encontramo-nos em uma espécie de equilíbrio metabólico, ou seja, utilizamos a glicose como fonte principal de energia e armazenamos seu excesso (em forma de glicogênio), além de utilizar a gordura e proteína que ingerimos como fonte de energia, armazenamento e muitas outras funções no nosso organismo.

comendo

Carboidratos: nossa principal fonte de energia.

Este equilíbrio entre comer, utilizar e armazenar carboidratos é verdadeiro quando não o ingerimos exacerbadamente e, ao mesmo tempo, fazemos pouca atividade física. Neste caso, a dieta deixa de ser equilibrada e pode causar problemas sérios de saúde como, por exemplo, diabetes. Com a gordura ocorre o mesmo, se ingerimos gordura em excesso, podemos ocasionar problemas de saúde como aterosclerose, por exemplo. É claro que com as proteínas não seria diferente, sua ingestão em excesso também pode causar alguns problemas. Porém, é importante lembrar que estes riscos não dependem apenas da alimentação, mas de inúmeros outros fatores externos, e também genéticos, fique tranquilo(a)!

Imaginemos a seguinte situação: de repente, eu começo a priorizar alimentos ricos em proteínas na minha dieta, enquanto a gordura e carboidrato passam a ser em torno de 30% da minha alimentação. Meu corpo continuará precisando de energia, então utilizará os aminoácidos contidos nestas proteínas, retirando deles o grupamento Amino (NH3), para que sua cadeia carbônica (esqueleto carbônico) seja enviada para a via gliconeogênese, formando glicose, e após piruvato que é transformado em Acetil-CoA e enviado para o ciclo do ácido cítrico, fornecendo energia.

retirada grup amino

Aminoácidos sem grupos amino, disponibilizando seu esqueleto carbônico.

Porém, com a ingestão em excesso destes aminoácidos, haverá uma abundância de moléculas de Acetil-Coa disponíveis para participarem do ciclo do ácido cítrico, e este excesso fará meu corpo interpretar que não necessito mais retirar elétrons para obter energia, preciso guardar o restante para utilizar em um outro momento. Então, as moléculas de Acetil-Coa são desviadas para a via de biossíntese de ácidos graxos, que irão se unir em triacilgliceróis (triglicerídeos), ácidos graxos e, por fim, vão direto para o tecido adiposo.

Triacilglicerol

Por isso, em uma dieta hiperproteica sem exercício o risco de engordar é alto, e com isso vêm outros riscos, como o aumento de colesterol, por exemplo.
Outra consequência deste tipo de dieta trata-se dos “resíduos” que ela deixa. Como já havia falado, para que o meu organismo possa utilizar as proteínas exógenas como fonte de energia, é preciso retirar o grupamento amino de cada um dos aminoácidos. Estes grupamentos, quando livres no sistema (nossa corrente sanguínea), transformam-se em amônio (NH4+), que é extremamente tóxico para o nosso organismo. Por isso, temos uma via específica para o descarte dessas moléculas: o ciclo da ureia. A ureia é uma molécula formada por um carbono, um oxigênio, dois nitrogênios e quatro hidrogênios, todos vindos de uma série de reações resultantes da degradação de aminoácidos no organismo. O ciclo da ureia ocorre no fígado, e posteriormente seu produto é filtrado pelos rins, onde é diluído.

Quando excretamos ureia em excesso, há o risco de se formarem cristais de ácido úrico, os quais acumulam-se nos próprios rins (causando cálculo renal) ou mesmo em cartilagens e articulações (doença conhecida como gota). É possível observar que a coloração e o cheiro da urina de um atleta cuja dieta é rica em suplementos hiperproteicos são extremamente fortes, tudo isso pode ser consequência da alimentação. Por isso, a importância de beber muita água em uma dieta hiperproteica, quanto maior for a diluição da ureia, maior chance de evitar estes problemas!

 

 Texto: Ingrid Winter

Ilustrações: Elise Fontoura

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