Por onde começar a mudança no curso de ciências biológicas?

biologia certo certooooooo

Efervescente discussão, inquietante, e um tanto intrigante.

A medida que as mudanças curriculares caminham no sentido de dar mais liberdade de escolha para o aluno selecionar as disciplinas que quer cursar e compor o seu currículo com o seu próprio perfil, por outro lado as didáticas das disciplinas continuam as mesmas, dando-se pouca atenção à mudanças de práticas didáticas ou de métodos de ensino.

Quando são pensados e estruturados os planos de ensino, me questiono se as seguintes perguntas chegam a passar pela cuca das professoras e professores:

“O que acho que os alunos deveriam aprender? Será que isso é relevante para a formação profissional deles? Por quê? Trata-se apenas de conteúdo? Como que eu devo abordar as temáticas da disciplina para que o aprendizado seja significativo para os alunos? Preciso abordar todas (e o máximo) das temáticas possíveis no tempo que tenho disponível, ou devo focar em outras coisas? Que coisas seriam essas? Qual será o foco da minha disciplina? A decoreba de conceitos, ou aprender a contextualizá-los e conectá-los com conhecimentos prévios? Que habilidades ou capacidades quero que sejam exercitadas pelos alunos a partir das metodologias e instrumentos de ensino que pretendo adotar? Quero que as(os) alunas(os) reproduzam o conhecimento, ou gerem novos conhecimentos?”

Essas perguntas, estruturadas de forma a fazer sentido, poderiam nortear a formulação dos planos de ensino para começarmos a mudar o curso, para além da grade curricular, para além do conteúdo que é transmitido verticalmente na grande maioria das aulas.

Além disso, quando é que as(os) alunas(os) são questionadas(os) sobre o quanto aquele método de ensino proporciona algum aprendizado a elas(es), ou com que método elas(es) aprendem mais, ou mesmo o que elas(es) querem aprender? Quando é que são considerados os conhecimentos que essas pessoas carregam em suas bagagens de experiências prévias?

No meu TCC, tive a oportunidade de fazer algumas dessas perguntas para algumas professoras e professores, alunas e alunos de disciplinas da bio. Meu objetivo era identificar se haviam oportunidades para o desenvolvimento do pensamento crítico nas disciplinas de biologia, dada a sua importância na tomada de decisões conscientes das pessoas, como profissionais e cidadãos. E também o de verificar como as(os) alunas(os) percebiam as metodologias de ensino adotadas em diferentes disciplinas.

Num primeiro contato, me surpreendi positivamente com a receptividade das professoras e professores. Nas entrevistas, me encantei com o brilho no olhar daquelas pessoas, gente como a gente, que falavam com emoção sobre a prática docente, sobre suas disciplinas e tudo mais, mas também percebi em suas falas a falta de segurança, de prática e de tempo para pensar em métodos diferentes e adotá-los em suas disciplinas. Muito embora a maioria dos professores entrevistados adotasse algum método de ensino que propiciasse o desenvolvimento de pensamento crítico pelos alunos, esses métodos eram abordados de forma pontual no semestre, e os alunos corroboravam tal prática, a partir das respostas que obtive nos questionários.

Outro resultado muito interessante que obtive a partir das respostas das alunas e alunos, foi o de que as atividades com as quais mais aprenderam eram aquelas nas quais conseguiam ser mais ativas(os) e autônomas(os) na construção do conhecimento. Porém, essas atividades eram bem raras nas disciplinas.

Nos relatos de algumas professoras(es), identifiquei obstáculos impostos ou criados e resistência a mudanças… Nos relatos de algumas(ns) alunas(os) também percebi certa resistência…

Então no fundo, de que mudança precisamos? Mudanças de práticas de ensino, currículo, ambiente de ensino, discentes, docentes. O que precisamos mudar? Por que precisamos mudar?

Precisamos mudar a postura de todas as pessoas envolvidas no processo de ensino-aprendizagem. Precisamos (re)pensar e (des)construir a relação docente-discente.

Para passarmos a construir juntxs, a nos ouvir e entender nossos obstáculos, nossas carências, nossas demandas, para quebrarmos a relação verticalizada estabelecida na instituição, e aprendermos juntxs.

Alunas(os) e professoras(es) tem mais em comum do que parece.

E essa mudança está começando… A inércia foi quebrada, e essa sementinha foi plantada durante a construção e ao longo da semana acadêmica, sementinha esta que agora germina no coração de muitas(os) alunas(os) e professoras(es).

Texto por Raquel Klein Paulsen

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