Efeitos da cafeína no organismo

A Cafeína

Na natureza, a cafeína pode ser encontrada em mais de 63 espécies de plantas, dentre essas, destaca-se a erva-mate. Popular no Rio Grande do Sul, a erva-mate está presente no cotidiano dos gaúchos principalmente no chimarrão e em alguns chás. Em pequenas quantidades produz sensação de energia e disposição, mas quando consumida em excesso pode provocar alguns sintomas de ansiedade e até insônia.

A cafeína é um composto químico do grupo das xantinas (metilxantina), atua principalmente sobre o sistema nervoso central e é capaz de produzir um estado de excitação. Xantinas são compostos orgânicos encontrados em algumas plantas, na urina e em tecidos do corpo humano, seus derivados são utilizados como estimulantes cerebrais, ou estimulantes psicomotores. 

c1

Figura 1. Estrutura química da cafeína. (1,3,7 trimetilxantina)

É a substância psicoativa mais consumida do mundo, na forma de bebidas como cafés, chás, refrigerantes a base de cola e alimentos como o chocolate. A cafeína é lipossolúvel e aproximadamente 100% de sua ingestão oral é rapidamente absorvida pelo trato gastrointestinal, atingindo seus níveis de pico no plasma, entre 30 e 120 minutos.         

Produto Volume ou Peso Conteúdo médio de cafeína (mg)
Café moído e torrado 150ml 83
Café instantâneo 150ml 59
Chá em saquinhos 150ml 30
Chá em folhas 150ml 41
Chá instantâneo 150ml 28
Chocolate em barra 28g 20
Chocolate ao leite 28g 6
Achocolatado 240ml 5
Refrigerante de cola 180ml 19
Refrigerante de cola diet 180ml 21

Tabela 1. Conteúdo de cafeína em produtos alimentícios.

A cafeína afeta a maioria dos sistemas do organismo, sendo que seus efeitos mais notáveis ocorrem no sistema nervoso central. Quando consumida em pequenas dosagens, a cafeína provoca aumento do estado de vigília, diminuição da sonolência, alívio da fadiga, aumento da respiração e aumento da frequência cardíaca. Em altas dosagens causa nervosismo, insônia, tremores e desidratação.

A Adenosina

A adenosina é um produto do metabolismo do ATP, sendo um mediador de diversas funções fisiológicas e fisiopatológicas no organismo como no sistema nervoso central. Formada pela união de uma adenina e uma ribose. É uma purina endógena sintetizada da degradação de aminoácidos como metionina, treonina, dentre outros.

c2

Figura 2. Estrutura química da adenosina.

Nos animais, atua no metabolismo energético desempenhando um papel importante na transferência de energia, sob a forma de adenosina trifosfato (ATP) e adenosina difosfato. Sob a forma de adenosina monofosfato cíclico (AMPc), colabora em vias de sinalização intracelular. A adenosina possui alguns receptores, dentre eles dois tipos são importantes na interação com a cafeína, são os receptores A1 e A2. A cafeína ao interagir com os receptores A1, inibe a enzima adenilciclase e essa inibição resulta em uma redução do ciclo de AMP, que é um mensageiro intracelular. A cafeína é uma rival dos receptores A1, portanto, ao impedir sua interação com a adenosina, aumenta os níveis de AMPc, provocando uma série de respostas no organismo, como: liberação de catecolaminas, aumento da pressão sanguínea, lipólise, aumento das secreções gástricas, aumento da diurese e ativação do sistema nervoso central.

Como a cafeína atua no nosso cérebro?

As moléculas de adenosina e cafeína se assemelham em suas estruturas. Por isso, as moléculas de cafeína conseguem enganar o cérebro e ocupar os sítios de ligação receptores da adenosina. Dessa forma, a adenosina não é capaz de agir no organismo e impede o cérebro de emitir sensores de sono e cansaço. A cafeína, por outro lado, estimula o sistema nervoso com a excitação de neurônios, gerando uma alteração no metabolismo energético, resultando em um estado de maior disposição.

Além disso, a cafeína aumenta os níveis de dopamina – conhecida como o hormônio do prazer e bem-estar. Por isso, suspeita-se que o efeito da dopamina esteja relacionado com a dependência da cafeína. Contudo, com a ingestão regular de cafeína, o organismo começa a desenvolver uma tolerância, ou seja, a necessidade de mais cafeína para atingir o mesmo efeito que atingia com menores quantidades. Isso se deve ao sistema nervoso, uma vez que ele cria mais receptores de adenosina para se autorregular e retomar seus sensores de cansaço. Sendo assim, quanto mais café uma pessoa toma, mais café ela precisará para sentir o efeito da cafeína.

Quais são os benefícios e malefícios da cafeína?

A cafeína apresenta alguns benefícios claros à saúde humana. A substância serve como estimulante do organismo, permitindo o melhor desempenho de atividades que requeiram energia e concentração. Vale ressaltar, contudo, que a cafeína não leva ao revigoramento físico e mental do organismo, estando apenas ligada à sensação de cansaço que recai sobre o indivíduo. Não substitui, portanto, o descanso periódico vinculado ao sono, sendo um risco à saúde o uso da cafeína como meio para manter-se acordado e alerta em momentos de extrema exaustão.

Por outro lado, o uso da cafeína – sobretudo o uso excessivo e em momentos inadequados – também dispõe de alguns malefícios. Isto é, a cafeína pode ter, seguindo a  lógica de agitação do organismo, uma série de efeitos colaterais negativos, de pequena à grande seriedade. Em quantidades menores, pode causar vontade frequente de urinar, dores de barriga, irritabilidade e ansiedade. Já em quantidades maiores, e a depender das condições de saúde do consumidor,  pode vir a causar taquicardia (aceleração do ritmo de atividade do coração).  

Grupos de risco do café… Será que isso realmente existe?

  • Gestantes
  • Idosos  
  • Crianças

Essas pessoas não devem ou não podem tomar café?

Gestantes podem consumir café?

Vários estudos não atestaram alterações no desenvolvimento fetal relacionadas com o consumo de cafeína, enquanto alguns observaram modificações quando o consumo foi muito elevado. Portanto, os efeitos da cafeína no feto ainda não foram completamente definidos. A recomendação do Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas (ACOG) é que o consumo de cafeína por gestantes não ultrapasse 200 mg/dia (para termos uma ideia, uma bebida energética contém 90 mg de café e uma xícara de café expresso contém de 100 até 150 mg de cafeína). É importante ressaltar que a cafeína não está presente apenas no café, mas também em refrigerantes, chocolates, medicamentos, chás etc.

Existe algum estudo no Brasil sobre o assunto?

Sim! Um estudo realizado no Instituto de Medicina Social, na UERJ, não encontrou relação entre o risco aumentado de prematuridade com consumo de cafeína. Foi notado que a maior parte das mulheres avaliadas não consumia mais do que 100 mg de cafeína por dia, sendo que é provável que os efeitos ao feto só aconteçam com o consumo de altas doses, como foi citado anteriormente.

Mas como o alto consumo de cafeína pode afetar o feto?

  • A cafeína pode demorar sete ou dez/onze horas para ser metabolizada no organismo de uma gestante nos dois primeiros trimestres da gestação, quando o tempo normal é de duas horas e meia a quatro horas. Isso ocorre porque, através de uma série de reações, os níveis hormonais das gestantes afetam a desmetilação (eliminação da metila, o grupo CH3) da cafeína, o que prejudica a sua metabolização. A alta concentração de cafeína no organismo da mulher inibe uma enzima que degrada uma substância chamada adenosina monofosfato cíclica (cAMP), que pode interferir no crescimento e desenvolvimento das células do bebê.
  • Essa substância tem um efeito vasoconstritor (contrai os vasos sanguíneos), o que pode diminuir o suprimento de oxigênio do feto. Essa falta de oxigênio pode provocar várias consequências como a diminuição do peso fetal, além de malformação. A vasoconstrição ainda reduz o fluxo sanguíneo para a placenta, o que pode afetar o crescimento do bebê.

Mas por que as crianças estão nesse grupo de risco? A maior parte nem toma café..

Não devemos esquecer que a cafeína não provém unicamente do café. Em crianças, o consumo de cafeína provém principalmente de refrigerantes (uma lata contém cerca de 50 mg de cafeína), barras de chocolate (14 mg de cafeína), leites achocolatados (200 mL contém 8 mg de cafeína) e outros produtos de confeitaria.

E quais são os riscos envolvidos no consumo elevado de cafeína por crianças?

A escassez de estudos sobre o assunto não nos permite avaliar com eficácia todos os riscos envolvidos no consumo de cafeína por crianças. No entanto, existem alguns pontos já conhecidos e avaliados:

  • O consumo elevado de cafeína pode causar agitação, inquietação, dor de estômago, irritabilidade, nervosismo, dores de cabeça e privação do sono, sintomas semelhantes aos vistos em adultos.
  • Como os produtos com cafeína ingeridos por crianças possuem altas dosagens de açúcares, o consumo elevado desses produtos pode estar relacionado com ganho de peso excessivo, bem como a ocorrência de problemas cardiovasculares.

E quais são as recomendações?

Como os estudos nessa área não foram muito difundidos, as recomendações são meio obscuras. Alguns países recomendam ingestão máxima de 45 mg de cafeína por dia para crianças com cerca de 18 quilos. Certos pediatras brasileiros afirmam que o recomendado é que a criança beba o café com leite, em uma xícara contendo três quartos de leite e um quarto de café.

E em relação aos idosos? Quais são os riscos e benefícios?

O consumo elevado de café em idosos pode aumentar a excreção urinária do cálcio, o que pode ser um fator de risco no desenvolvimento de doenças como osteoporose, principalmente em mulheres. Em adultas mais jovens, os efeitos são pouco visualizados pois o aumento das perdas urinárias é compensado pelo aumento da absorção intestinal de cálcio. Enquanto isso, nas mulheres mais idosas, esse equilíbrio não é realizado de maneira adequada.

Em relação aos benefícios, vários estudos mostram que o consumo normal de cafeína pode diminuir significativamente o risco de doenças mentais, como o Alzheimer. No entanto, ainda é cedo para atestar isso de maneira definitiva. A cafeína pode, ainda, fortalecer a musculatura do diafragma, o que pode ser importante nos idosos já que a degeneração dos músculos ocorre a partir de certa idade.

c5.png

Autores:

Aline Paz

Andressa Leão

Caroline Trevelin

Júlia Marcolin

—————————————————————————————————————————————–

Referências:

https://repositorio-aberto.up.pt/bitstream/10216/82556/2/116243.pdf

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S141552732005000500007&lng=pt&tlng=pt

https://www.scielosp.org/article/csp/2005.v21n6/1919-1928/

https://www.scielosp.org/scielo.php?pid=S0102311X2007001200002&script=sci_arttext&tlng=

-https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0149763409000037?via%3Dihub

 

https://academic.oup.com/jn/article-abstract/123/9/1611/4724584

 

 

Anúncios