FEIRA DE CIÊNCIAS

PENSANDO O ENSINAR HOJE

POR JOSÉ CLÁUDIO FONSECA MOREIRA

Para entendermos os dramas vividos hoje em sala de aula e podermos discutir como estimular nossos alunos, talvez seja importante pensarmos um pouco na história evolutiva da educação. Vamos começar nossa jornada imaginando quando esse processo possa ter se originado. Acredito que, em algum ponto do que chamamos de pré-história, o responsável por um clã deva ter entendido que, para a sobrevivência de seu grupo, seria importante passar seu conhecimento aos descendentes, uma transmissão empírica, intuitiva e natural do que havia aprendido na sua curta vida, mas que seria fundamental para que o clã não tivesse que começar sua exploração do mundo do nada, assim com os jovens aprendendo com os mais velhos pela observação e pela imitação, da mesma forma como os animais o fazem. O tempo passou, as cidades foram surgindo, a agricultura e a pecuária foram se estabelecendo, as relações com a propriedade privada foram mudando e, por conseguinte, foram se modificando também as relações entre os homens.

Nesse ponto, talvez possamos pensar que aquela coletividade, antes indiscutivelmente necessária para a própria sobrevivência da espécie – como fica evidente na contribuição do indivíduo caçador que articula com seu bando a caçada – vai perdendo espaço para as atividades mais individuais ou em pequenos grupos, dando margem para que começassem a surgir as organizações hierárquicas, o que, em outras palavras, podemos traduzir pelo aparecimento de classes sociais. Naqueles primórdios de civilização, aqueles que tinham condições permitiam a seus filhos que tivessem tempo livre, não dispendido com a sobrevivência, e, portanto, investido em atividades intelectuais, como estudar e conhecer o mundo. Tempo livre para divagar e observar a natureza, para criar hipóteses, para filosofar. Sim! Estamos diante do surgimento da academia, a filosófica, a dialética, a retórica – A Grécia clássica e seus pensadores, a base da civilização ocidental. Alunos abastados, que passavam seus dias em jardins, ouvindo e questionando seus mestres e aprendendo, por meio de suas indagações, o conhecimento e as interpretações que esses sábios davam aos fenômenos naturais, sociais e antropológicos. O debate, a discussão, o diálogo, ou seja, uma educação participante, ativa, questionadora, mesmo que, muitas vezes, os professores fossem escravos como na Roma dos Césares, mas eram mestres reverenciados por seus conhecimentos adquiridos no passar de uma vida. Havia, naquelas épocas, uma correlação íntima entre os interesses e a atualidade das sociedades e a educação dos jovens; uma conexão entre a sociedade e o ensino. Aprendiam a oratória, a retórica , a filosofia, as artes e a literatura. Com a queda de Roma e o início da Idade Média veio o crescimento da Igreja Católica e, como as tendências educacionais costumam andar junto com (os valores) da sociedade-, a vida política que ditava as regras na civilização greco-romana foi substituída pela religião, e surgem, então, os ensinos das sete artes liberais que preparavam os alunos para o ápice do estudo: a Teologia. O trivium (lógica, gramática e retórica) e o quadrivium (aritmética, astronomia, música e geometria). Cabe, ainda, lembrar que, encontrando respaldo nas imposições religiosas, o estudo na Idade Média era restrito a poucos, e, majoritariamente, um direito reservado apenas a homens e dos estratos sociais mais privilegiados. E, enquanto na Europa a religião crescia em força e dominava o pensamento ditando o que se podia e o que não se podia estudar, a ciência propriamente dita estava se desenvolvendo a pleno vapor no mundo árabe.. Chegamos então ao Renascimento. Redescobrimos a Grécia e abrimos caminho para o Iluminismo. Na idade moderna, a educação combatia o teocentrismo e dava poderes ao homem, incentivando o seu pensamento e estimulando a sua criatividade. O lema “Liberdade, Igualdade, Fraternidade” deu nascimento à Revolução Francesa (1789-1799) e, com ela, à Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (França). Também instigou a outras declarações semelhantes em vários países, tanto na Europa como na América. 

Vieram os direitos civis e o povo, ainda que distribuído entre as mais diversas camadas sociais e gozando, portanto, de privilégios distintos, mais ou menos escassos, conquista a sua cidadania, o que o legitima o direito à escola. Começa então a democratização do ensino. E vem a Revolução Industrial: as manufaturas artesanais são atropeladas pela geração de bens de consumo em volume de escala imposta pelo novo modelo de produção, criando-se, com isso a necessidade de formar mão-de-obra especializada para atender às novas demandas. Essa formação estritamente técnica e operacional possibilitou a ampliação da educação para as classes mais desfavorecidas da população. Reinvindicações por uma educação para todos já era um anseio social. O ensino técnico, ao mesmo tempo em que proporcionava um ofício aos filhos dos menos abastados, e os desviava dos caminhos obscuros da criminalidade, também assegurava que os assentos da academia, onde se desenvolvia o verdadeiro ensino intelectual, pudessem seguir sendo ocupados pelos filhos dos que ocupavam as classes dominantes. Uma bondade movida pela necessidade de uma sociedade de posses que tudo consumia e que não cogitava a possibilidade de que seus filhos sentassem a mesma sala de aula que os filhos de um operário da indústria. A sala de aula que conhecemos hoje, com alunos enfileirados, trancados em um espaço frio e restritivo com um professor distante e empoderado pela força é um resquício daquele momento histórico: a educação em escala industrial. E isso pouco mudou nos anos que se seguiram. Nos livres anos 1960 da era da modernidade líquida, muito foi questionado, novos sonhos de igualdade e maior amor universal foram gritados aos quatro ventos, mas dentro das salas de aula pouca coisa mudou. Porém chegam os anos 1980, e demos de cara com a era da informação: os avanços tecnológicos começaram a forçar sua entrada na sala de aula, a sociedade transformou-se e a escola, as salas de aulas, resistiram enquanto puderam. Mas como sempre as mudanças na sociedade cobram seu preço e empurram a educação na direção em que andam, dão as caras os laboratórios de informática, uma tentativa de conter a modernidade a espaços controlados dentro de um modelo seguro e tradicional: a sala de aula permanece como um castelo inatingível e imutável! Eis que ninguém contava com a 4a Revolução Industrial: a internet das coisas, o inimigo na trincheira, o celular invade a vida, invade o mundo e trás consigo um mundo à disposição na palma da mão. Habilidades novas são desejadas desesperadoramente pela sociedade que corre e se adapta. A lógica, a computação, a informática, a robótica, os conhecimentos digitais são uma necessidade para que o indivíduo sobreviva e, com estes novos conhecimentos, uma subversão da ordem aparece: o professor não é mais o detentor do conhecimento; este está agora ao toque dos dedos, disponível na palma da mão.

Cabe ao professor atualizar métodos, aprender a compartilhar o protagonismo, ressignificar sua função e colocar-se numa posição mais colaborativa. Estimular o protagonismo discente, dando ao aluno a oportunidade de construir sua própria história e trilhar seus caminhos próprios de aprendizagem. Do nada o professor tem que se jogar de corpo e alma a novos métodos de ensino, que valorizam o virtual, o individual, a experimentação, a colaboração e a interdisciplinaridade. O aluno sai do papel de observador passivo e vira o ator de seu processo de ensino e aprendizagem. Bem-vindo ao Futuro! Só que esta história um pouco longa me fez refletir e os convido a pensarem comigo: se tirarmos a questão virtual, mas, ainda assim, pensarmos no processo colaborativo, da construção conjunta do conhecimento, é como se estivéssemos voltando à academia grega, ao caminhar juntos e ao aprender o processo peripatético (ver ensino Aristotélico). Não é que realmente o mundo é cíclico? Andamos, andamos e redescobrimos o óbvio! Tal e qual a ideia da Samsara, giramos na grande roda da vida e ao retornarmos à origem estamos no mesmo ponto, porém em um nível mais elevado. Hoje, podemos ser neoperipatéticos e caminhar ativamente pelo mundo, aprendendo, só que podemos andar por todos os lugares acessando a um dispositivo móvel que cabe na palma de nossas mãos, e ir aonde nossos pés e nossos bolsos talvez não pudessem nos levar, mas com a mente seguimos “audaciosamente indo aonde ninguém jamais esteve”- como diria James T. Kirk. Toda essa enrolação pra dizer que quando me vi frente ao dilema de trazer os alunos da disciplina de Biologia Celular do curso de Biotecnologia da UFRGS, no semestre de 2021/1, da sala de aula para a realidade e contextualizar os aprendizados da disciplina, pensei em criar um feira de ciências virtual. Puxei da cartola dois temas ligados a este terrível momento pandêmico que vivemos: a origem e a evolução dos vírus e o papel da compartimentalização celular na evolução dos seres vivos. Deixei os alunos livres para se expressarem, apresentarem e interpretarem os temas como achassem melhor. Propus que os trabalhos de melhor estrutura ganhariam as páginas da revista eletrônica – A bioquímica como ela é – E como todos os trabalhos apresentados resultaram fascinantes, decidimos, nós da equipe da revista, compartilhar todos com vocês, leitores! Espero que vocês vejam, como nós vimos, que com a liberdade e o estímulo certo, todos lucram, a educação prospera e o aprendizado acontece. Valeu gurizada! Que alegria para um professor! Ganhei meu semestre! Acompanhem aqui a íntegra dos trabalhos e boa leitura.

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