Jejum Intermitente: o que é e quais as consequências

O que é e quais os tipos de jejum intermitente:

Jejum intermitente é um método de emagrecimento que intercala longos períodos de jejum com janelas de alimentação, ou seja, períodos onde a pessoa pode se alimentar. Fora desse período de alimentação a pessoa deve ingerir líquidos que não possuam calorias, como água (com ou sem gás), chás e café sem açúcar. O objetivo é fazer com que o corpo utilize os estoques de gordura e com isso haja uma perda de massa gorda.

Há alguns tipos de jejum intermitente, o jejum de 12h, que pelo nome já vemos que dura 12h, essas que incluem as 8h normais de sono, e que fala sobre ter três refeições no resto do dia. Há o sistema Leangains, que fala sobre 16h de jejum e duas a três refeições na 8h restantes. E por último protocolo coma, pare, coma, que fala sobre deixar um ou dois dias na semana para não se alimentar completamente, ele é o método com maior dificuldade de adaptação. Nunca esquecendo que todo esse processo precisa de orientação adequada para que a pessoa não se auto prejudique.

Por que o jejum intermitente ajuda a emagrecer?

Para entender melhor como essa dieta funciona é preciso saber por quais fases o corpo passa ao longo do dia: o momento em que está alimentado e os momentos de intervalo entre uma refeição e outra, ou seja, o jejum.

No final da alimentação, o organismo da um destino para a energia absorvida em forma de glicose. Para isso, é necessário que o organismo ative o hormônio insulina, que é responsável por inserir esse açúcar dentro das células. A energia que não será utilizada pelas células é armazenada pela insulina em forma de tecido adiposo, ou seja, gordura.

Depois de um tempo a energia se esgota e o corpo necessita usar algumas reservas, como o glicogênio, que é a energia armazenada nos músculos e o tecido adiposo, ativando hormônios que atuam na quebra de gordura (glicólise), como o glucagon.

Quando se está em uma dieta, como o jejum intermitente, alguns hormônios, como o glucagon, que quebram gorduras atuam por mais tempo no organismo, assim facilitando a perda de peso. O jejum pode prevenir a resistência à insulina, pois evita picos elevados de insulina.

Mecanismos de ação e respostas adaptativas:

Um jejum com duração entre 12 e 24 horas pode resultar na redução em cerca de 20% os níveis de glicose, além da diminuição do glicogênio hepático. Também pode levar a mudanças de vias metabólicas, onde a glicose extra-hepática, corpos cetônicos derivados de lipídios e os ácidos graxos são utilizados como fonte de energia.

E como se forma os corpos cetônicos?

São produzidos, principalmente, nos hepatócitos a partir do acúmulo de acetil-coA, induzido pelo jejum (Figura 1). O oxaloacetato que seria utilizado na primeira reação do ciclo de Krebs, com o acetil-coA, para a formação de citrato, porém, o oxaloacetato é desviado para a formação de piruvato e glicose, no processo de gliconeogênese. Esses acontecimentos levam ao acúmulo de acetil-coA vindo da beta oxidação dos ácidos graxos, liberada para a corrente sanguínea pelos adipócitos.

Qual a importância dos corpos cetônicos?

Os corpos cetônicos, junto com o glicerol derivado da gordura e os aminoácidos contribuem com cerca de 80g/dia de glicose gerada pela gliconeogênese, que dependendo da composição corporal, essas diferentes fontes energéticas permitem que o organismo humano sobreviva até 30 dias sem suprimento alimentar.

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Figura 1: Esquema de formação dos corpos cetônicos.

Cérebro e doenças neurodegenerativas:

Em mamíferos, a privação severa de calorias resulta em uma diminuição no tamanho da maioria dos órgãos, exceto cérebro e testículos, evidenciando a importância da manutenção da função cognitiva em condições de escassez de alimento.

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Figura 2: Representação dos órgãos sob efeito do jejum.

Jejum, inflamação e hipertensão:

O jejum intermitente de longo prazo pode ter diversos efeitos benéficos, e um deles é no tratamento da artrite reumatoide (AR). A artrite reumatoide é uma doença crônica autoimune sistêmica caracterizada pela inflamação frequente das articulações. Durante o período de jejum tanto a inflamação quanto a dor diminuem nos pacientes com AR. Porém, ao normalizar a dieta, a inflamação retoma a não ser que o paciente siga uma dieta vegetariana logo após o término do jejum, pois a dieta vegetariana sozinha já reduz consideravelmente a pressão arterial.

Outro efeito benéfico do jejum a longo prazo é na diminuição da pressão arterial. Uma média de 13 dias de jejum somente com água, por exemplo, reduz a pressão arterial sistólica dos pacientes com hipertensão limítrofe (140 mm Hg) para 120 mm Hg. Nesse caso, a pressão arterial continua reduzida por uma média de 6 dias após o término do jejum, ao contrário do caso da artrite reumatoide.

Síndrome Metabólica:

A Síndrome Metabólica é definida por uma grande adiposidade abdominal, resistência à insulina combinada com triglicéridos elevados, e/ou hipertensão. Ela aumenta o risco de doenças cardiovasculares, diabetes, AVC e doença de Alzheimer. Por meio do jejum, a sensibilidade à insulina está aumentada e as capacidades funcionais dos sistemas nervoso, neuromuscular e cardiovascular são melhoradas.

Além disso, várias alterações hormonais que identificam a síndrome em humanos também são observadas em roedores mantidos em dietas com alto teor de gordura e produtos de níveis elevados de insulina, incluindo leptina e adiponectina e níveis reduzidos de grelina. O jejum resulta na diminuição dos níveis de insulina e leptina e na elevação dos níveis de adiponectina e grelina, aumentando a sensibilidade à insulina, possibilitando assim a diminuição de várias características da síndrome metabólica como o aumento da sensibilidade à insulina, estímulo da lipólise e redução da pressão sanguínea.

Aumenta chances de desenvolver diabetes:

Alguns estudos mostraram que o jejum intermitente aumenta as chances de desenvolver diabetes, já que os animais analisados submetidos ao jejum apresentaram um aumento significativo na produção de espécies reativas de oxigênio, o que altera o funcionamento da insulina, responsável por botar a glicose para dentro da célula, podendo assim, resultar num aumento de concentração de glicose no sangue, o que é característico da diabetes.

Alterações no hipotálamo:

Em outro estudo, foi observado que o jejum intermitente pode gerar alterações no hipotálamo que levam ao descontrole do apetite, podendo resultar na compulsão alimentar. Pois, ao final desse estudo, os animais submetidos ao jejum -comparados ao grupo controle- apresentaram um aumento significativo dos neurotransmissores AgRP (peptídeo agouti-relacionado) e NPY (neuropeptídeos Y), que são responsáveis por estimular o apetite, e uma redução nos níveis do hormônio leptina, que inibe o apetite e sinaliza saciedade.

Vantajoso ou desvantajoso?

É importantíssimo salientar que ainda não é possível afirmar se o jejum intermitente é vantajoso ou desvantajoso, pois, mesmo que tenhamos achados mais artigos mostrando resultados positivos do que negativos, se tem muitas controvérsias nos estudos feitos até hoje, enquanto uns, por exemplo, demonstram um aumento da glicose no sangue, outros demonstram uma diminuição. Então, é necessário que se façam pesquisas a longo prazo, principalmente com humanos, para conhecermos as reais consequências geradas por essa prática e podermos confirmar, ou não, se é uma intervenção nutricional segura e benéfica.

Autores:

Bruna Valentini

Carolinne Xavier

Mariana Goulart

Nathália Cristina

Victória Cassel

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Referências:

-CHAUSSÊ, Bruno. Estudo dos efeitos metabólicos e redox de dietas intermitentes. 2015.

-CERQUEIRA, Fernanda Menezes. Long-term intermittent feeding, but not caloric restriction, leads to redox imbalance, insulin receptor nitration, and glucose intolerance. 2011.

-CERQUEIRA, Fernanda Menezes. Efeitos da restrição calórica nas vias de sinalização por insulina e óxido nítrico: Implicações para biogênese, morfologia e função mitocondrial. 2011.

-LONGO, Valter D. & MATTSON, Mark P. Fasting: Molecular Mechanisms and Clinical Applications. 2014.

-CUNHA, Fernanda Rodrigues. Jejum intermitente: uma abordagem dietética e seus benefícios à saúde. 2017.

-BAPTISTELLA, Ana Beatriz & SANTOS, Gustavo Barbosa. Jejum intermitente e implicações metabólicas.

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