O ato e a prática de jejuar

– Olá, que tal falarmos um pouco sobre o Jejum?

– Sim!

Jejum, aquelas horas sem nos alimentarmos geralmente antes de um exame de sangue, e realmente para grande parte das pessoas pode ser apenas algo que devemos realizar antes de um exame médico. Mas você sabia que diversas religiões pregam que se realize um jejum periodicamente ou em uma certa data calendário e até mesmo dão liberdade às comunidades e indivíduos de jejuarem se o bem entenderem? No entanto, é uma prática saudável praticar o jejum? O que a ciência, a bioquímica e a fisiologia podem nos dizer sobre isto? O que está acontecendo em nosso corpo metabolicamente?

Jejuando paramos de absorver glicose pelo intestino através da alimentação e a taxa de glicólise hepática diminuí, assim como o glicogênio armazenado em nosso fígado que começa a ser utilizado; até o momento em que o organismo para de usar a glicose hepática e busca formas de gerar energia através de outras fontes, utilizando principalmente de aminoácidos cetogênicos (AAs que podem ser diretamente degradados em AcetilCoa) e corpos cetônicos derivados da oxidação de ácidos graxos no fígado e nos músculos que são liberados na corrente sanguínea pelos adipócitos.

Quando vamos fazer um exame de sangue nos é orientado que se jejue para que nosso metabolismo esteja em um nível basal, ou normal de atividade, sem alterações de outros fatores como um aumento na liberação de insulina e de glicose no sangue devido ao estado alimentado do nosso corpo. Assim, o laboratório é capaz de medir os níveis de colesterol e a taxa e glicose, ou o número de leucócitos em um nível normal de atividade.

No entanto, caso se adote o jejum como hábito, o organismo vai acabar realizando diversas funções em taxas diferentes e, inclusive, o jejum controlado vem sendo testado para melhorar o quadro clínico de uma série de patologias. Mas não se esqueça, deve-se haver bom senso, por exemplo: ninguém vai sugerir para a tia grávida que ela jejue como forma de não engordar ou no caso de um atleta de alto desempenho (ou alguém que possua uma rotina semanal de exercícios) se você for esse tipo de pessoa você não deveria jejuar uma vez que seu gasto calórico e o desgaste muscular já é elevado. Além disso, não se alimentar corretamente antes da prática de exercícios físicos é errado e pode ser prejudicial tanto ao desempenho quanto para saúde.

No entanto, essa prática não é só prejudicial ao organismo. O próprio Mahatma Gandhi era conhecido por ter realizados diversos jejuns na sua vida como formas de protesto e este viveu bem de saúde até ser assassinado aos 78 anos em 1948. Estudos com roedores mostraram que o jejum alternado foi capaz de reduzir e até mesmo reverter condições comuns a Síndrome Metabólica (problema que vem atingindo uma parcela cada vez maior da população devido aos nossos hábitos atuais e dieta cada vez mais rica em açúcares) como o funcionamento dos sistemas nervoso, neuromuscular e cardiovascular, aumento na sensibilidade de insulina do nosso corpo, além de uma redução naquelas gordurinhas extras do abdômen e no quadro inflamatório característico da obesidade. Mas isso não é estranho se pararmos para refletir… a gente consegue perceber diversas adaptações a períodos alternados de jejum tanto em mamíferos quanto em outros organismos (um hábito mais comum na natureza onde a disponibilidade de alimentos não é tão alta), por exemplo, pinguins imperadores que podem passar por jejuns de até 5 meses durante o período do acasalamento e nascimento dos filhotes alterando o metabolismo entre a fase dependente da dieta e o período em que se tenta ‘economizar’ o uso de proteínas. Algo parecido acontece quando ursos e outros animais hibernam no inverno porém estes mamíferos desenvolveram mecanismos evolutivos para manter o corpo aquecido, mesmo num estado em que a taxa metabólica está muito reduzida e a disponibilidade de comida drasticamente reduzida. É necessário que se diferencie os tipos de restrições alimentícias que fazemos. Para todos, um jejum durante a noite de 8 a 9 horas é comum, mas geralmente estamos bem alimentados antes de dormirmos e nosso organismo está num estado mais sedentário em que dá prioridade a outras atividades. Precisamos entender, também, que o jejum não é o mesmo que Restrição Calórica, utilizada como forma de perder peso, e sim a não ingestão de qualquer alimento: é possível fazer uma restrição calórica simplesmente comendo menos, ou reajustar as proporções que geralmente comemos, cortando um pouco os carboidratos, mas mantendo as quantidades para proteínas e gorduras por exemplo, até mesmo práticas como o vegetarianismo e o veganismo de um ponto de vista nutricional podem ser consideradas restrições ao consumo de proteínas. A grande questão é ter bom senso e um ponto de vista crítico caso se queira adotar o jejum como prática, saber se os seus hábitos particulares e estilo de vida permitem o Jejum sem este ser prejudicial a sua saúde e, se necessário, ter uma conversa sincera com um(a) nutricionista e organizar uma dieta correta para o seu estilo de vida.


Escrito com base na Review escrita por (Longo D., Valter & Matsson P., Mark – 2014 Cell

Metabolism 19) – texto por Henrique Mautone Gomes aluno de Iniciação junto ao Centro de

Estudos em Estresse Oxidativo (Laboratório 32, Departamento de Bioquímica – ICBS, UFRGS)


Texto: Henrique Mautone Gomes

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